top of page
CERRADO INFINITO
DA casa das caldeiras

O cerrado

​Quando o padre José de Anchieta subiu a serra do Mar a partir de São Vicente, encontrou uma paisagem diversa da densa floresta tropical. No planalto paulista o clima ameno e os campos arbustivos traziam um conforto familiar, sugerindo aspectos da vegetação mediterrânea. Os Campos de Piratininga, eram um mar de colinas que alternava bosques de Mata Atlântica, araucárias e várzeas alagadas, com extensos campos cerrados. Esse contraste com a Mata Atlântica, foi determinante para a escolha dos primeiros povoados dos colonizadores portugueses, como atestam os nomes de Vila de São Paulo de Piratininga, Santo André da Borda do Campo, São Bernardo do Campo ou Santo Amaro da Borda do Campo.  Essa paisagem campestre, deu espaço primeiramente para o gado e o trigo,  depois para os ciclos da cana de açúcar e do café, que por sua vez desapareceram sob a intensa industrialização e desenvolvimento urbano. Esquecido pela cartografia típica que define o bioma, distante dos livros escolares, se tornou inimaginável para a grande maioria dos cidadãos que apontam a Mata Atlântica como a paisagem nativa paulistana. Hoje, soterrado numa amnésia profunda, o campo continua, só que agora rupestre, com cânions de concreto e asfalto, e sua vegetação composta de 96% de plantas estrangeiras, ainda está longe de constituir uma floresta. A cidade é o novo ecossistema, recriado perpetuamente, onde o cerrado como sua antítese é o terreno baldio original, ocupando um espaço em suspensão que não participa da cidade, e entendido apenas como potência de vir a ser alguma coisa.

O infinito

​​A trilha foi a primeira intervenção do ser humano na paisagem, e muito antes dos grafismos pré-históricos, uma linha que se desenha rasgando a vegetação e o relevo. A necessidade de repetir seu percurso, desenvolve ao longo do tempo nas suas margens, meios de subsistência, moradia ou negócios, substituindo completamente o território natural pelo território produtivo. A trilha do “Cerrado Infinito” é um processo reverso que se forma á partir de ações contínuas de descolonização da paisagem vegetal urbana. Ocupa áreas já destinadas a uma função, como praças públicas, gramados, jardins ou locais que tenham espaço a ser transformado, liberando o solo de qualquer  função pré-determinada, substituindo a vegetação estrangeira pela nativa, em um processo de descolonização vegetal da paisagem. O processo repetido continuamente, desenvolve um percurso ondulante que aproveita o terreno e prolonga o tempo de caminhada ao máximo, como um anti-atalho ou um passeio inútil, sem função de transportar e ganhar tempo. A imersão na vegetação, convida ao ócio, a sensibilização e descolamento da espacialidade e tempo cotidiano.​​

​​A decolonização

​O espaço público tomado por ervas daninhas, ressignificadas visualmente como paisagem natural histórica da cidade, se torna um território para novos processos.​ No convívio as pessoas se tornam a fauna possível de um um ecossistema artístico que atua além da dimensão da natureza, em esferas simbólicas que promovem outra ordem de conexão. Pela trilha se compartilham sementes, mudas de plantas, informações, eventos, idéias, arte, pesquisa e diversão. O evento DESCOLONIZATION!!! Pick nick Internacional de decolonização da paisagem vegetal mundia, realizado aleatóriamente, apresenta algumas experiências  artísticas desenvolvidas no Cerrado Infinito, por diferentes artistas  e  pesquisadores, de arte sonora, instalações, dança e performace, além de conversas abertas com convidados. Os Cerrados Infinitos, desenvolvidos em diferentes locais, constituem fragmentos de uma trilha única, conectada entre si pela imaginação, e a vontade de ser percorrida coletivamente, ignorando a geografia determinada pelo urbanismo, as diferenças sociais e os sistemas de transporte urbanos. 

bottom of page