“Vi terras da minha terra. Por outras terras andei. Mas o que ficou marcado no meu olhar fatigado. Foram terras que inventei.”

Trecho do poema "Testamento" de Manuel Bandeira ( 1943 )

"Cerrado Infinito é o primeiro experimento de recriação de uma paisagem de cerrado 

dentro de uma área urbana pública.

Um refúgio de plantas inevitavelmente extintas ao longo do desenvolvimento da cidade de São Paulo,

e expulsas para a periferia até seu completo desaparecimento. O projeto as resgata,

mapeando sobreviventes, coletando mudas e sementes para serem plantadas em conjunto,

 formando ao longo do tempo a visualidade dos extintos Campos de Piratininga.

   A tentativa é desprogramar territórios pela cidade, e devolver a terra a um marco zero,

anterior á ocupação colonial. Também é um esforço para cultivar um terreno baldio e biodiverso,

de plantas, animais e de pessoas á medida que recuperam a memória do lugar que habitam. 

O projeto, instaura um novo começo, onde os cidadãos são convidados a plantar cerrado, criar um

convívio cotidiano com essas plantas e uma nova cultura campestre pela cidade,

que inverte a estética valorizando  uma  flora sempre desconsiderada, 

sistematicamente destruída, e vista como mato do atraso.

Trata-se entre outras coisas, de tomar ciência das histórias do nosso desenvolvimento e destruição,

 trazendo á frente, a importância dessa pequena área de cerrado

 que já ocupou mais da metade da cidade. Este primeiro sertão,

hoje extinto, esquecido e fora da cartografia do bioma, palco e origem

de toda a cultura sertaneja com sua culinária, música e comportamento, forjou uma cidade

que apaga seu reflexo caipira entre edifícios de vidro.

O projeto é um lembrete do paraíso perdido paulistano com sua natureza riquíssima e biodiversa,

um mosaico de biomas, com delicados campos de cerrado,  várzeas pantaneiras

e a exuberante floresta atlântica.

Se esta cidade é um modelo de desenvolvimento para o resto do pais, o projeto  não deixa de ser

um monumento involuntário á nossa inabilidade como povo de evitar a destruição dos biomas e da nossa identidade com a paisagem natural."

Entrevista para Radio Saracura em  Outubro de 2019

Guia de campo dos Campos de Piratininga, ou O que sobrou do cerrado paulistano ou Como fazer seu próprio Cerrado Infinito.

Ao comprar o livro, você aprende e ajuda a manter o projeto!

O cerrado

Quando o padre José de Anchieta subiu a serra do Mar a partir de São Vicente, encontrou uma paisagem diversa da densa floresta tropical. No planalto paulista o clima ameno e os campos arbustivos traziam um conforto familiar, sugerindo aspectos da vegetação mediterrânea.

Os Campos de Piratininga, eram um mar de colinas que alternava bosques de mata atlântica, araucárias e várzeas alagadas, com extensos campos cerrados. Esse contraste com a Mata Atlântica, foi determinante para a escolha dos primeiros povoados dos colonizadores portugueses, como atestam os nomes de Vila de São Paulo de Piratininga, Santo André da Borda do Campo, São Bernardo do Campo ou Santo Amaro da Borda do Campo. 

Essa paisagem campestre, deu espaço primeiramente para o gado e o trigo,  depois para os ciclos da cana de açúcar e do café, que por sua vez desapareceram sob a intensa industrialização e desenvolvimento urbano. Esquecido pela cartografia típica que define o bioma, distante dos livros escolares, se tornou inimaginável para a grande maioria dos cidadãos que apontam a Mata Atlântica como a paisagem nativa paulistana. Hoje, soterrado numa amnésia profunda, o campo continua, só que agora rupestre, com cânions de concreto e asfalto, e sua vegetação plantada com 96% de plantas estrangeiras, ainda está longe de constituir uma floresta.

A cidade é o novo ecossistema, recriado perpetuamente, onde o cerrado como sua antítese é o terreno baldio original, ocupando um espaço em suspensão que não participa da cidade, e entendido apenas como potência de vir a ser alguma coisa.

O infinito

A trilha foi a primeira intervenção do ser humano na paisagem, e muito antes dos grafismos pré-históricos, uma linha que se desenha rasgando a vegetação e o relevo.

A necessidade de repetir seu percurso, desenvolve ao longo do tempo nas suas margens, meios de subsistência, moradia ou negócios, substituindo completamente o território natural pelo território produtivo.

A trilha do “Cerrado Infinito” é um processo reverso que se forma á partir de ações contínuas de descolonização da paisagem vegetal urbana. Ocupa áreas já destinadas a uma função, como praças públicas, gramados, jardins ou locais que tenham espaço a ser transformado, liberando o solo de qualquer  função pré-determinada, substituindo a vegetação estrangeira pela nativa, em um processo de descolonização vegetal da paisagem.

O processo repetido continuamente, desenvolve um percurso ondulante que aproveita o terreno e prolonga o tempo de caminhada ao máximo, como um anti-atalho ou um passeio inútil, sem função de transportar e ganhar tempo. A imersão na vegetação, convida ao ócio, a sensibilização e descolamento da espacialidade e tempo cotidiano.​

A arte ruderal

Ruderal, do latim ruderis, significa literalmente entulho, e designa comunidades vegetais adaptadas para se desenvolver em ambientes fortemente alterados e perturbados pela ação humana. As plantas ruderais seguem os passos do homem e estabelecem neles, condições para outras formas vegetais mais exigentes, num processo continuo de sucessão até a completa restauração biológica.

Em arte, comportamento ruderal designa artistas ou trabalhos que se utilizam de espaços institucionais áridos ou terrenos públicos assépticos da cidade, para estabelecer territórios de diversidade biológica e cultural. Tudo o que acontece no Cerrado Infinito é ruderal.

A descolonização

O espaço público tomado por plantas de terreno baldio, ressignificadas visualmente como paisagem histórica do passado, se torna um território para novos processos.

Com o convívio, as pessoas se tornam parte de um um ecossistema artístico que atua além da dimensão da natureza, em esferas simbólicas que promovem outra ordem de conexão com seus afazeres, pela trilha se compartilham sementes, mudas de plantas, informações, eventos, idéias, arte, pesquisa e diversão.

Os Cerrados Infinitos, desenvolvidos em diferentes locais, constituem fragmentos de uma trilha única, conectada entre si pela imaginação, e a vontade de ser percorrida coletivamente, ignorando a geografia determinada pelo urbanismo, as diferenças sociais e os sistemas de transporte urbanos.

Aleatoriamente, promovemos o evento DESCOLONIZATION!!! Picnic Internacional de Descolonização da Paisagem Mundial, que apresenta algumas experiências  artísticas desenvolvidas no Cerrado Infinito, ou artistas convidados por sua relação com o assunto.

Quem pode participar?

Qualquer um pode participar, ou pode tomar a iniciativa de construir seu próprio Cerrado Infinito. Se possível participe das atividades, ou apenas olhe de fora, algo sempre pode acontecer.

Trecho 01 -  Praça Homero Silva ( Praça da Nascente ) Rua André Casado, travessa da Avenida Pompéia 2140,  Bairro da Pompéia, Zona Oeste.

 

Trecho 02 -  Escola Estadual Jardim das Camélias, que fica na Rua, Bairro Jardim das Camélias, Zona Leste.

Entrevista para jornal Estado de São Paulo, programa Paulistices com Edison Veiga Setembro 2017 

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