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COLETIVO DO CERRADO  comportamento ruderal

O Coletivo do Cerrado, foi formado para protejer os fragmentos de cerrado dentro do campus da UFSCAR.

O CERRADO RESISTE!

O Coletivo do Cerrado está ansioso.
O raríssimo cerrado paulista no campus da Universidade Federal de São Carlos, uma área com mais de 200 ha (equivalente a 200 campos de futebol), e que serve de refúgio para Onças-pardas, Jaguatiricas, Veados e Lobos-guarás corre perigo.

A própria administração da universidade, propõe construir uma estrada cortando a área ao meio , criando um impacto mortal na fauna que será certamente atropelada e que a longo prazo perdendo seu habitat, pode ter muitas de suas espécies extintas localmente. Apesar de o projeto da universidade prever passagens de fauna e cercas, é sabido que tais medidas não garantem a preservação das espécies, além do danos causados pelo impacto da poluição do ar, sonora, iluminação etc.

A opção sugerida pelo Coletivo, um desvio de apenas 500 metros, é vista com preguiça pela direção do campus, completamente míope para a importância desse remanescente.

A seguir uma ENTREVISTA com Alesandra Pavesi, Carolline Z. Fieker, Jhavana Ferro, Lara Padilha e Mayla Willik Valenti Roese, todas membros do Coletivo do Cerrado, explicam melhor o caso.

CI – Coletivos não se formam sem um objetivo, gostaríamos de saber quais foram as demandas que criaram a necessidade de vocês se agruparem.
Mayla -  O Coletivo do Cerrado surgiu de forma natural a partir do momento em que soubemos que o cerrado estava ameaçado em 2007. Primeiro nos organizamos para solicitar esclarecimentos da universidade. Depois que soubemos que a intenção era de fato desmatar a área, passamos a nos reunir e coletar todos os argumentos existentes para evitar essa ação irresponsável da Ufscar. Logo percebemos que seria necessário entrar com uma ação no Ministério Público para garantir a manutenção da área. Na época dois professores protocolaram a ação,  já com a assinatura de muitas pessoas que apoiavam a causa. Ao longo de todos esses anos a organização do grupo mudou bastante à medida que as demandas foram surgindo. O nome “Coletivo do Cerrado” surgiu para nos identificarmos melhor como grupo e como movimento de defesa do Cerrado. Além das ações de luta, outras propostas de ação foram surgindo, como a realização de visitas na área, a participação em eventos, a coleta e produção de mudas de Cerrado e a implantação do Pomar do Cerrado dentro do campus da Ufscar, em 2015.

LARA –  O grupo Coletivo do Cerrado é composto por pessoas de diferentes idades, formações acadêmicas, ocupações e experiências de vida. Agregou-se inicialmente em 2007, quando se pretendeu construir um prédio da Petrobras dentro da área de Cerrado, na Área Norte do campus. Esse grupo acionou o Ministério Público e, de fato, o prédio acabou sendo construído em outra área – apesar de, infelizmente, ser todo cercado de grama e árvores exóticas, assim como praticamente todas as novas construções, sem diálogo algum com o Cerrado, vegetação nativa da região.

Desde então, a formação do grupo se altera bastante, pois muitos são estudantes, que terminam seus cursos, se mudam, começam a trabalhar ou se engajam em outros movimentos e acabam se afastando dos trabalhos…

Desde 2013, novamente houve uma maior concentração de esforços, com a aprovação, pelo Conselho Universitário, da construção de uma avenida que ligaria a área já construída com uma área a ser ocupada com construções no futuro, a chamada “área de expansão”, no extremo norte do campus, suprimindo vegetação de Cerrado, o que, segundo lei estadual, é proibido. Além de tal medida estar totalmente fora de qualquer plano de expansão de bom senso.

CI – Qual  a importância desse fragmento, o que tem de especial nele e por que deve ser preservado?

ALESSANDRA - A proximidade desse fragmento de Cerrado da área urbanizada do campus, seu fácil acesso por usuários do transporte público, pedestres e ciclistas, e, sobretudo, a vitalidade e beleza de sua paisagem o tornam um lugar ideal para a imersão e o convívio com uma natureza, que particularmente no nosso estado, tende a ser acuada para regiões sempre mais distantes dos centros urbanos.

CAROL - O cerrado da Ufscar abriga uma diversidade incrível de fauna e flora. Resistem e prosperam nessa área espécies de animais vertebrados ameaçadas e/ou endêmicas do Cerrado que precisam ser preservados, por motivos óbvios.

JHAVANA – Esse Fragmento faz parte de um remanescente de Cerrado na região de São Carlos, regionalmente também funciona como um corredor ecológico, interligando demais áreas verdes, Unidades de Conservação, fragmentos de outras áreas, etc.

Atualmente, qualquer área de Cerrado é importante, pois o Complexo está praticamente extinto, o que torna ainda mais especial.  Temos o privilégio de ter  o Cerrado da Ufscar, rico em número de espécies de fauna e flora,  bem ali, do ladinho. Preservar o Cerrado é questão de qualidade de vida e consequentemente boa saúde. É questão de respeito a todas outras formas de vida.

 

CI – De que forma se dá a relação do campus, da população em geral com esse local, e como essa estrada é um desastre para esse cerrado?
LARA – Atualmente, não há uma regulamentação da área pela administração da Ufscar. Existe o projeto de extensão Trilha da Natureza, desde 1992, que realiza principalmente visitas monitoradas à área de Cerrado. As pessoas também vêm ao Cerrado caminhar, correr e andar de bicicleta, individualmente, em família, em pequenos e grandes grupos. Os estudantes também realizam atividades de pesquisa. Inicialmente, a administração previu a devastação de uma área bem maior, e, devido às diversas intervenções do Coletivo do Cerrado junto ao Ministério Público, essa área foi reduzida e hoje é de 2,8 ha, o equivalente a cerca de 3 campos de futebol.

Além da própria derrubada da vegetação, a construção fragmentaria o Cerrado, prejudicando a circulação, alimentação, reprodução dos animais que sobrevivessem às obras, o que, no futuro, também levaria à degradação da área de vegetação isolada.

ALESSANDRA - Há décadas, o Cerrado é usado por docentes e alunos (da graduação e pós-graduação) como um laboratório in natura, para a realização de atividades práticas de ensino e pesquisa, particularmente nas áreas de Biologia, Gestão Ambiental e Ecologia de Recursos Naturais. Os resultados dessas atividades corroboram tanto a sua relevância ecológica, como a sua importância para o exercício das competências dos futuros profissionais formados pela Ufscar e por outras universidades da região, que levam seus alunos para conhecer a área. A construção de uma via de interligação, projetada para suportar um tráfico intenso de veículos durante o dia todo, com a consequente produção de ruídos, vibrações, luminosidade artificial, além de outras formas de poluição, afetaria inevitavelmente a organização e dinâmica desse ecossistema já bastante fragilizado pelo avanço da infraestrutura urbana na área norte e de expansão do campus. Direta e indiretamente, inviabilizaria também os serviços que esse fragmento de Cerrado presta, há tanto tempo, à própria comunidade universitária e à população de São Carlos. Muito cinicamente, a equipe da Ufscar responsável pelo projeto da estrada previu a construção de torres de observação, como se a vista do Cerrado do alto de uma torre, por mais bela, pudesse proporcionar as mesmas oportunidades de mobilização integral do nosso aparato sensível e cognitivo, que deriva da vivência incorporada da paisagem. De maneira análoga, tudo o que é possível apreender de um carro em movimento é apenas uma imagem fugaz do Cerrado, a qual dificilmente despertaria atitudes de pertença e cuidado com a vida desse bioma.

Jhavana- O ciclo da biodiversidade nesse cenário favorece a manutenção de qualidade de água das nascentes adjacentes e, inclusive, uma delas abastece cerca de 15 %  a cidade de São Carlos, entre outras contribuições ecológicas.   Além disso, no Cerrado há a aplicação de educação, pesquisa e extensão, o tripé da Universidade. Ainda contribui com o lazer da sociedade, através das caminhadas, pedaladas, amantes de fotografias, enfim, há arte, há lazer, há aprendizados e vida silvestre. Homem e natureza convivem.

Os impactos da estrada serão: ecológicos e sociais.  Em termos ecológicos, com a fragmentação ocorrerá isolamento de algumas espécies, atropelamentos de outras, afastamento de outros, aumentará o risco de incêndios no Cerrado, perda de área permeável, poluição devido a lixos, combustíveis, óleos de carros, motos, ônibus e caminhões, além de poluição sonora e visual, entre outras problemáticas de estradas e  combustíveis não-renováveis, possível contaminação de lençol freático.  As pessoas que utilizam a área como lazer e exercícios físicos, educação ambiental, pesquisas, entre outros, terão falta de segurança ao caminhar pela área. Com o aumento do risco de incêndios e veículos motorizados, caminhar pelo Cerrado, por exemplo, poderá não ser tão seguro. A área que é procurada justamente por seus atrativos naturais, o sossego de estar  em contato com a natureza, um refúgio, poderá ser invadida pela urbanização.

CI - O que deveria ser feito para preservar esse importante remanescente, e qual seria seu papel  para a restauração de cerrado paulista, vocês se relacionam com outras organizações protetoras de outros cerrados pelo estado? Como poderiamos unir essa ainda pequena comunidade de pessoas interessadas? Vocês vêm uma possibilidade de ação e ampliação da consciência do assunto no estado?
LARA – Como somos  poucos e com muitas tarefas, temos mantido uma atividade mínima suficiente para a manutenção da resistência, em relação a tudo que gostaríamos de fazer…

No ano passado, inauguramos o Pomar do Cerrado, um pomar com cerca de 20 mudas de plantas frutíferas típicas de Cerrado, muitas delas formadas a partir de sementes do próprio Cerrado na Ufscar, pelo Maurício, um dos membros do Coletivo. Fizemos mutirões de cuidados ao Pomar, de plantio de mudas dentro do próprio Cerrado, atividades com crianças da Unidade de Atendimento à Criança (UAC) da Ufscar, participamos de exposições e palestras.

O Cerrado tem sido atacado por todos os lados – vide Matopiba – e, em São Paulo, tenho certeza de que, assim como a administração da Ufscar assume explicitamente que considera o fragmento já fadado a desaparecer, os administradores públicos dão o Cerrado como extinto. Tanto que, apesar de reconhecer áreas prioritárias de importância biológica extremamente alta de Cerrado no estado, o Ministério do Meio Ambiente não possui um Plano Estadual de Controle e Prevenção do Desmatamento para cá.

Como parte do trabalho de divulgação e comunicação (principalmente pela página no Facebook), temos tentado estabelecer ligações com outros grupos que defendem o Cerrado – e o Cerrado Infinito é um deles, que nos inspira! Com certeza, a união dos grupos em uma Aliança em Defesa do Cerrado Paulista seria fantástica, mas ainda não conseguimos ter estrutura para isso…

ALESSANDRA - Bastaria uma simples decisão judiciária para frear a invasão das áreas naturais de Cerrado na Ufscar. Mas para promover a sua conservação, regeneração e manejo é necessário muito mais, a começar pelo empenho da administração da Ufscar.

A gestão das áreas naturais, assim como das áreas verdes no campus, se tornará verdadeiramente sustentável somente se a percepção destas, por parte da administração e da população em geral, for alterada. No momento em que esses espaços e suas paisagens forem percebidos como vitais em sua dimensão física e biológica e, sobretudo, quando essa vitalidade reverberar nas mentalidades das pessoas, em suas atitudes, e ações, estaremos na direção de um tempo no qual a decisão de conservá-las, regenerá-las e criá-las já não será imposta pela justiça – que pune a universidade por uma transgressão da lei ambiental. Antes, nascerá de um comprometimento ético e estético com a sociedade. Em minha opinião, Impedir a invasão e a destruição desse fragmento de Cerrado na Ufscar poderia se tornar um importante marco na luta para a conservação do bioma em todo o Estado, e fortalecer todos os grupos de proteção do Cerrado, que, assim como o nosso Coletivo, se confrontam com adversários e interesses muito fortes.

CI - Para finalizar o que é o cerrado para vocês, no sentido mais pessoal possível, por que ele mobiliza vocês a ponto de fazer todo esse esforço?

LARA – Desde que mudei para São Carlos, 16 anos atrás, moro perto deste fragmento de Cerrado, mas não foi paixão à primeira vista. Estamos acostumados a achar bonita a vegetação da Amazônia ou Mata Atlântica, e a vegetação do Cerrado e da Caatinga sempre nos foram mostradas em filmes de “cangaço”, sem nenhum atrativo especial. Com o tempo, fui descobrindo suas belezas, e hoje o considero um santuário. Tenho um amor especial pelos animais – inclusive, sou vegana – e a existência dos animais nessa área me motiva muito a lutar por sua preservação. Sou formada em Letras e, ao longo deste ano em que me tornei membro do grupo, estudei muito sobre o Cerrado e minha noção sobre a necessidade de protegê-lo aumentou ainda mais. Ver as obras dos prédios que já foram construídos em meio aos eucaliptos, que ficam em meio ao Cerrado, com toda devastação e todo o lixo gerado no entorno, poluição sonora – e pensar nas consequências disso para os animais é muito impactante.

ALESSANDRA - Sou de origem italiana, mas nasci brasileira no Cerrado. Ele faz parte da minha formação, memória e identidade. Estudei Ecologia e isso me aproximou mais ainda, e por outros caminhos, desse bioma, pelo qual tenho um carinho muito grande. Nos últimos anos tenho feito pesquisa na área de educação ambiental. Mais especialmente, me interessa saber em que pé está a educação ambiental na universidade. O que está acontecendo na Ufscar me diz muito sobre isso. Acompanho as ações do Coletivo desde os tempos do meu doutorado, quando o grupo estava em formação. Aprendi um bocado desde então, e não só sobre o Cerrado. Gosto disto, de fazer do ativismo uma prática de aprendizagem.

JHAVANA - Para mim o Cerrado é representação de Resistência … Mesmo considerado feio por uns, atropelado pelas atividades agropecuárias, estradas, urbanização entre outras ameaças humanas, tem como ciclo (quando natural), o Fogo, que passa e leva o verde, e com a água e persistência, ele volta … Raízes profundas que estão ali firmes, para reerguer a vida quando necessário … Vivo ele continua e mostra sua biodiversidade, cheio de cores, cheiros, sabores, aprendizados…  o Cerrado  da Ufscar existe, é vivo e Resiste!!