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SILVIA MH  do artístico

Silvia MH, reside e trabalha em São Paulo. Artista Plástica e Arte Educadora. Explora diferentes materiais e linguagens, produzindo e acionando “artisticamente”questões  relacionadas a vivência e experiência em lugares de convívio conflituoso.

HILDA HILST

Um dia Daniel me falou algo sobre a escritora Hilda Hilst. Guardei Aquilo na cabeça, e fui pesquisar sobre a sua obra. Encantada, encontrei em suas palavras coisas que eu precisava dizer. Questões relacionadas com o movimento da minha vida, a arte, e a essência do processo de manter um jardim “vivo”, o cerrado infinito. Fiz uma adaptação de um dos textos que escrevi : “Trançado Vermelho”, com um trecho do poema “Alcoólicas” de Hilda Hilst. Ele foi apresentado , através da leitura no último evento do Descolonization.


Paráfrase de um trecho do poema de Hilda Hilst


É crua a vida. Alça de tripa e metal
Nela despenco: pedra mórula ferida.
Quando sinto dor, amarro todas as partes
do corpo. Tranço órgãos e organismos, de modo que os
“sentidos” fiquem presos na pele, nos pelos e fios.
Mas, a irregularidade da forma, sempre deixa
Escapar “coisas”.
É crua a e dura a vida. Como um naco de víbora.
Como-a no livor da língua.
Tinta, lavo-te os antebraços, vida, lavo-me
No estreito-pouco
Do meu corpo.
Condicionado, aciona elementos do cotidiano,
e quando desativado classifica espécies em valores:
Humano 1, Humano 2, Humano 3
Avesso corpo,
Despido
Vulnerável, submetido, “exposto” aos que se escondem
(prisioneiros que provocam rebelião no escuro)
Lavo as vigas dos ossos, minha vida
Tua unha plúmbea, meu casaco rosso.
E perambulamos de coturno pela rua
Rubras, góticas,altas de corpos e copos.
O vermelho provoca.
Confusão naquele que é observado
(memórias não cabem mais aqui)
São apenas objetos ( resto de coisas), feito bolhas, duras, brutas, mas brilham...
A vida é crua.
Faminta como o bico dos corvos
E pode ser tão generosa e mítica : Arroio, lágrima, Olho d’água, bebida.
A vida é líquida.

MATADOURO

Pouco tenho produzido nos últimos dias, no sentido do fazer concreto.  Comecei a entender,  sentindo,  que tudo “acaba”(ficando) em memória. E a energia que mantém o meu corpo aceso deve ser valorizada e depositada em ações “invisíveis”, escondidas em “pequenos convívios”.

No “inquieto silêncio” de querer conviver, me perdi no conflito das confusões afetivas e, produzir objetos que “falam”, foi  o meio mais possível de sobreviver.

Sábado de agosto, não me lembro exatamente o dia, foi minha primeira participação no mutirão do “Cerrado Infinito”. Sem saber o que iria encontrar, ou fazer, mergulhei no mistério para atender a um convite muito especial. Foi um deslocamento fácil, porém, difícil lidar com a estranheza dos outros e os afazeres que desconheço:  “lidar com a terra”. Mas, logo o meu corpo se adaptou e reconheceu a sua natureza. Ficou solto, livre sobre a terra, sem a preocupação de produzir o “belo”. Simplesmente agir, sentir e estar, sem esperar.

Outros “sábados vivos” aconteceram. Nos mutirões, pessoas transitórias, sem a rigidez de se fazer presente para cumprir o seu papel  de cidadão consciente ou condicionado ao salário que o sustenta.

O “fazer sentido” é de plantar “riquezas horrendas” e ressuscitar o selvagem no “mundo civilizado”, este que admira e coroa a beleza do que é falso, possível de se ver e tocar.

Enxergo esse “mal” nos lugares que frequento diariamente. Um prédio estruturado para “aprisionar” grupos de crianças e adolescentes. Conter e controlar, ao máximo, todas as dúvidas, dores, conflitos de seres que nasceram sem saber o motivo.

Controle! Controle! Controle! Explosão controlada.

Ás vezes, esqueço que existo e percebo que os frequentadores desse lugar não reconhecem a sua própria existência. São  corpos que gritam, porém, permanecem no mesmo lugar. Comparo às “riquezas vegetais” escondidas e/ou perdidas na “sociedade das perfeições”, encontradas  em terrenos baldios e nos buracos do mundo. Lugares Inúteis.

O infinito de uma vida. O cerrado que não se acaba continua na área externa de uma escola – o lugar do controle -, e agora, propõe o pequeno deslocar de alguns jovens, que trocam a sala de contenção , pelo espaço “livre de pensamento”.

Sentir a própria existência na convivência “real” é o caminho, sem fim.

ESCOLA DE SONHOS CONTIDOS

O lugar da “educação” é feito de condicionamentos e coisas são desfeitas quando não atendem determinados comportamentos. As possíveis saídas desse lugar, são tentativas penosas que escapam, voltam e são contidas apenas no sonho.

Mas algo forte aconteceu durante três meses quando um “jardim selvagem” começou a crescer, plantando novidades, em um território amortecido. Adolescentes, adultos, frequentadores da instituição “escola pública”, reuniram-se por alguns dias para mover algo latente além das plantas. Construíram, conviveram e experimentaramapreender a descobrir novidades.

Mas outra convenção, as férias, interrompeu essas ações, e o jardim ficou ali, por mais de um mês sem a visita de ninguém. As ervas daninhas cresceram rapidamente, ocupando o terreno, e as plantas do cerrado se tornaram imperceptíveis, camufladas de terreno baldio.

A imagem “suja” de um matagal abandonado, pareceu um retrocesso inútil e fracassado ao esforço empregado por quase todos, e  eu mesma em mais um condicionamento, o das  simples tarefas cotidianas, não consegui mais visitar o jardim, que ficou no seu estado próprio, além do que percebemos. Mas na última  quinta-feira, pela manhã, me alertaram sobre algo que havia acontecido por lá, esqueci os afazeres e logo fui até o “pequeno cerrado”, que tinha sido limpo das ervas daninhas, e vi uma imagem de renovação, o começo de tudo, o caminho de pedras, as plantas inteiras, respirando, cada uma ocupando o lugar onde as plantamos.

O “jardim selvagem” ainda estava ali.

Fiquei feliz.

E no meio disso tudo, estava ele, Sr. Cláudio, um funcionário da limpeza da escola, que movido pela própria vontade, “limpou” o que parecia perdido aos olhos comuns, e em um ato que podemos chamar de rebeldia, por que no nosso contexto desafia a convenção, manteve todo o esforço anterior preservando as plantas do cerrado.

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