DESCOLONIZATION!!!

Atualizado: 23 de jun.



Cada uma das 10 edições realizadas de DESCOLONIZATION!!!, no período de 2015 a 2019, marcou um tempo diferente de desenvolvimento do Cerrado Infinito. Todos esses eventos tentaram debater e criar relações culturais, a partir da retomada da vegetação pré-colonial da cidade de São Paulo. No início do projeto, a grande dificuldade era convencer as pessoas sobre a existência do cerrado paulistano, depois de décadas de apagamento dessa fitofisionomia da paisagem e memória urbanas. Essa falta de enraizamento local, típico de grandes cidades cosmopolitas, ignora que sem os campos de cerrado, extintos pelo desenvolvimento urbano, provavelmente a própria cidade não existiria. Se o cerrado paulistano na sua funcionalidade como bioma não tem volta, seu cultivo serve de reflexão sobre nosso modelo de desenvolvimento. O projeto introduziu conceitos de arte, paisagismo e regeneração, ressignificou espécies tratadas como ervas daninhas e passou a ser vivenciado no cotidiano da cidade, como um lugar de visitação. Se ainda tem muito o que ser entendido, a pandemia da COVID -19 interrompeu o evento e as ações coletivas de plantio do Cerrado Infinito, razão de ser do projeto. Engana-se quem pensa que uma vez feito, o Cerrado Infinito se mantém por si, como se a natureza seguisse um conjunto de movimentos sempre em curso, no sentido da sua conservação. A cidade substituiu o equilíbrio natural que existia, pela nossa presença e atividades, criando um território completamente hostil a sua própria vegetação nativa, que destituída das suas relações ecossistêmicas, pode apenas sobreviver se for permitida pelos cidadãos. Seu cultivo é um processo de cura pessoal e coletiva , que apresenta novas camadas de entendimento, à medida que se trabalha na terra e se cria um ambiente urbano mais saudável, um refúgio de polinizadores e fertilidade, resgatando a história do seu processo de desaparecimento. Não é um percurso fácil, o cultivo de cerrado é a antítese da cultura agrícola sobre a qual se funda o entendimento ambiental das pessoas, um consenso praticamente unânime e equivocado quando se baseia unicamente na fertilidade orgânica da terra preta. O cerrado , pelo contrário , vive da sagrada terra vermelha, pobre em nutrientes, mortal e excludente para outros tipos de vegetação não adaptadas a essa situação. Conceitualmente nos demonstra que existem várias ecologias, e vai além da sombra das árvores da floresta, como uma vegetação solar que se contrapõe aos edifícios que crescem na cidade. Também o desrespeito pelo espaço público é uma constante que ocorre muito além do Cerrado Infinito e da própria Praça da Nascente, roubos de plantas, depredação e lixo , além da competição com o exército de plantas exóticas que tomaram seu lugar, são desafios permanentes a essa comunidade vegetal. Apesar disso , a paisagem se manteve durante a pandemia, com algumas doações e a venda de camisetas que deram recursos para contratar jardineiros para sua manutenção. Nesse período, recebemos também uma generosa ajuda da equipe de áreas verdes da prefeitura, o que indica uma mudança no tratamento a esse tipo de vegetação, de evitar moitas em áreas públicas superando uma ideia de controle visual dos espaços. Se o cerrado tem aos poucos deixado de ser referido como o primo feio das grandes florestas tropicais para ser apreciado e entendido de forma mais ampla, avanços importantes foram feitos por meio de associações de coletores de sementes, paisagistas mais atentos às questões ambientais, o desenvolvimento ainda em curso de técnicas de restauração, entre diversas outras iniciativas ambientais as quais o Cerrado Infinito se insere, como ativador artístico ruderal, de uma nova estética da savana. Ao mesmo tempo as consequências como a relação do seu desaparecimento com a falta de água, entre outros sintomas se tornam gritantes. O cerrado vai muito além de likes em fotos de flores e paisagens deslumbrantes, compartilhadas em redes sociais, são necessárias ações concretas e um posicionamento de toda a sociedade para interromper o desastre do seu fim em curso. Mas será que a pandemia, por fim vai acabar de fato? Teremos novos plantios e DESCOLONIZATIONS??? O cerrado será infinito? Saberemos em breve. Por ora apenas constatamos que o infinito é uma vontade, que apenas se pode realizar coletivamente.















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