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LÚCIO TAMINO  alimento ruderal

Lúcio Tamino  é anarco, mora na Serra da Cantareira no meio das plantas, e cozinha no projeto PANC é PUNK!

PUNK COME PANC!

Lúcio,  tem algumas idéias anarquistas. Morando á 8 anos na Serra da Cantareira, ele dá vazão a sua curiosidade por assuntos dispares como geologia, botânica e as estrelas, a verdade é que ele é um astuto observador da natureza, que narra com ricos detalhes.

Um dos organizadores do evento PANC é PUNK, onde apresenta diversos usos de plantas alimentícias não convencionais, se tornou mais um colaborador do Cerrado Infinito, nas fotos ele planta um exemplar de Lobeira.   

CI - Lúcio para começar conte um pouco o que você buscou ao morar na Serra da Cantareira, como tem sido o cotidiano, e  que mudanças aconteceram na paisagem durante esse tempo.

- Faz tempo que comecei a ter um olhar bem crítico sobre a forma como estamos vivendo, sobre as prioridades da maioria das pessoas. Na cidade a gente acaba sendo levado também para esses caminhos, por causa da influência dessas mesmas pessoas, da mídia, etc. Eu queria ir atrás de um maior contato com a natureza, tentar colocar em pratica ideias que tinha sobre sustentabilidade e independência. Mas nessa época eram só ideias superficiais mesmo, teorias e fetiches, já que eu sempre vivi na cidade. Quando fui para a Serra, eu não conhecia quase nada sobre a natureza. Quando olhava para a mata, só via o verde, não sabia distinguir muito as árvores, pássaros, etc, mesmo sendo artista e treinando a observação há muito tempo. Não sabia nada sobre as constelações e astronomia. Tudo isso mudou bem rapidamente, porque mergulhei totalmente no entorno. Cada dia trazia novas descobertas e aprendizados. Com o tempo certas teorias e ideias foram sendo desmistificadas, desconstruídas, a vivência prática é bem diferente do que o que fica só na nossa cabeça. No começo eu não queria cortar nenhuma planta, tinha um apego exagerado com tudo. Não tinha noção dos ciclos de vida e morte que precisamos conhecer e lidar, do lado mais pesado da natureza, que não é só bonita e tranquila. Quando a gente vive essas coisas, certas dificuldades, aprende a respeitar mais a natureza, não pela preservação ou ideal ecológico da natureza intocada, mas pelo papel que nós mesmos desempenhamos nela, entender o nosso lugar, nossas capacidades, limitações e impactos. O homem sempre se coloca em um papel de controle sobre tudo, como se fosse responsável por gerenciar, consertar tudo. Um aprendizado importante é entender o que não tem a ver com a gente, que muita coisa não está no nosso controle, deixar que as coisas aconteçam sem ficar querendo controlar. Por outro lado, acabei mudando bastante o ambiente ao meu redor, mesmo que sem querer. Fui deixando as espécies de plantas e árvores espontâneas crescerem e introduzi várias outras, até a umidade aumentou bastante por causa disso. Onde antes só havia grama foi se transformando em outra coisa e a mata também se desenvolveu bastante.

CI - Como, começou teu interesse pelas PANCs, e qual a relação que você vê com o surrado movimento Punk? Parece que ambos são fenômenos de ambientes instáveis e desequilibrados como o meio urbano e com uma persistência própria das ervas daninhas, difíceis de erradicar. Já dizia o velho bordão “punks not dead”, por que isso acontece?

- Comecei a aprender sobre as PANCs quando elas ainda nem eram chamadas assim, lá por 2005. As chamávamos de daninhas comestíveis, ou plantas espontâneas comestíveis. Um coletivo chamado “Erva Daninha”, com influencias do Freeganismo, Anarquismo Verde e Anarcoprimitivismo, fazia essa pesquisa sobre elas, já que são gratuitas e promovem a autonomia. Eles também introduziram essa ideia lá na Casa da Lagartixa Preta, no ABC, e o pessoal da casa colocou esse conhecimento em prática desde aquela época. Para mim, o movimento punk é muito mal visto e interpretado por causa de preconceitos que foram associados a ele, e a comparação com as plantas daninhas é boa, já que ambos são vistos como danosos somente porque interferem com a ordem estabelecida. Um punk não é necessariamente uma pessoa de moicano, coturno, vestido de preto, etc. É simplesmente uma pessoa que pensa por si própria, que questiona as coisas e tenta mudar as coisas na prática. O anarquismo também é visto de forma superficial e estereotipada, ligada com o caos, desordem, quebra-quebra. Na verdade é uma visão política muito mais complexa que isso, que tem a ver com a ideia de que nós podemos governar a nós mesmo, abandonar e encontrar alternativas a esse sistema doentio, que não precisamos de governos autoritários nos controlando. O capitalismo e o sistema político atual estão sendo questionados e boicotados cada vez mais, cada vez mais pessoas compartilham dessas ideias, então acho que na verdade o punk está ainda mais presente. Só o rótulo que talvez tenha sido deixado de lado, exatamente por causa dos estereótipos e preconceitos relacionados a ele. Pra mim, o pessoal da agricultura urbana e das PANCs que está surgindo em São Paulo, podem ser considerados punks, só não usam esse nome.

CI - O Cerrado Infinito tem problemas constantes com as plantas ruderais, que crescem em excesso, é comum algumas pessoas pensarem  que deveríamos deixá-las se desenvolver, como um processo natural, onde a natureza busca seu equilíbrio. Não estariam de todo erradas se não tivéssemos que levar em consideração que a tentativa de reconstruir os Campos de Piratininga, parte de um processo de migração ( transplante ) totalmente artificial, que precisa se estabelecer para só depois encontrar seu equilibrio natural. Como podemos ainda assim usar as ruderais nesse processo? Comendo-as todas? São todas PANCs?

- As plantas ruderais, como o próprio nome diz, são as que vão bem quando o homem altera o ambiente. Elas podem vir de muitos ambientes diferentes, de outros países e ecossistemas. Qualquer espécie que se prolifere demais, se tornando praticamente um praga, não beneficia um ecossistema, que é um ambiente com um número grande de espécies diferentes em equilíbrio, e não um número grande de indivíduos de poucas espécies. Mesmo o processo natural de sucessão ecológica, que pode ajudar a formar um ecossistema, pode ser acelerado ao se controlar as espécies invasoras e manejar as plantas ruderais que são de cerrado. Uma forma ótima de diminuir o número de invasoras seria comendo as que são PANC e usando também as que são medicinais. É muito legal começar a identificar as plantas, aos poucos vamos ficando com um olhar cada vez melhor para detalhes, e acaba ficando fácil reconhecê-las. Mas nem todas são comestíveis ou medicinais, ou pelo menos não se conhece ainda o seu uso, porque ainda faltava o interesse necessário para que essa área de conhecimento avançasse. Isso está começando a mudar por causa da consciência dos males da agroindústria, dos venenos que comemos diariamente, assim como os da indústria farmacêutica e péssimos sistemas de saúde. Eles apenas visam o lucro e estão cada vez mais distantes das população, o que está fazendo as pessoas decidirem cuidar elas mesmas de sua saúde e alimentação. As plantas medicinais são importantíssimas, e a maioria dos remédios são feitos usando seus extratos de qualquer forma, por isso vale a pena aprender a usá-las diretamente. Muitas podem ser usadas em formas de chá ou aplicadas diretamente nas áreas afetadas. A Babosa por exemplo é ótima para muita coisa, e basta ter um pé dela para ela nunca faltar. A usam muito em cosméticos, só que muita gente não sabe que é ela porque a chamam de Aloe Vera, seu nome científico. Aprendi a fazer pomadas caseiras usando apenas as plantas e ingredientes simples como argila ou cera de abelhas. A cultura do campo e a indígena trazem de volta esse conhecimento e o cerrado é um dos biomas com uma infinidade de espécies com usos medicinais e alimentícios. Estou animado com o aumento do interesse pelas plantas, acho que as cidades podem mudar bastante, com verdadeiros jardins comestíveis e medicinais, com uma maior valorização das plantas e ecossistemas nativos, antes negligenciados. Conforme esse processo ocorra, as ruderais podem dar lugar a ecossistemas mais complexos, em maior equilíbrio.

CI - O Cerrado Infinito é uma tentativa de visualizar e com isso ressignificar uma cultura campestre perdida no meio urbano, do outro lado da pista de asfalto, as PANCs são também parte de mudanças de comportamento crescentes, que não aceitam o padrão de como produzimos e consumimos alimentos. Poderíamos concluir dizendo que os Campos de Piratiniga são agora um mix da vegetação pre-colonial sobrevivente com as ruderais? Em que essas culturas do mato se contrapõem a uma prática de um paisagismo amortecedor dos sentidos? Que cultura é possível numa paisagem uniformizada de ficus benjamina, ciprestes e eucaliptos?

- A grande maioria das árvores usadas na arborização de São Paulo são exóticas, ou seja, são de outras regiões e países. Esse número está ao redor de 80%. Isso vem de uma cultura que não valoriza as nossas plantas nativas, uma cultura colonizada. Também existe um grande preconceito em relação a espécies consideradas como mato, ervas daninhas, mas isso faz parte da falta de conhecimento, do distanciamento contemporâneo da cultura do campo. As pessoas estão abandonando o campo e acreditam que a cultura da cidade é superior, acham que a cultura do campo é “de pobre”, e essa visão é bastante difundida pelos meios de comunicação, que supervalorizam a cultura urbana capitalista. Então as pessoas do campo se consideram inferiores e acabam abandonando esses costumes. Isso aconteceu bastante no último século e continua acontecendo. Muito conhecimento se perdeu nesse processo. Agora um resgate está começando a ser feito, mas geralmente esse resgate vem de um movimento iniciado nas cidades, já que quem é do campo continua com essa visão de que mexer com a terra é coisa de gente pobre e quer “subir na vida”. São estereótipos que acabam definindo os costumes das pessoas. Um cacto chamado Palma, por exemplo, é comestível e sempre foi consumido no campo, mas como hoje ele está associado a pobreza, a pessoas vão evitar comer ele, ligando ele com situações de miséria. É uma grande ironia que um alimento disponível seja desconsiderado por causa de fetiches sociais. As pessoas preferem comprar um alimento no mercado, que envolve dinheiro, transporte, agrotóxicos, etc, ao invés de comer o que a natureza oferece. Isso tem a ver também com a relutância em plantar alimento em jardins e quintais, a “síndrome de jardim vitoriano”, onde só se plantam gramados e plantas não comestíveis, porque plantar comida significaria uma necessidade. As pessoas querem se afirmar como não necessitadas, tanto para os outros, quanto para si mesmas. Uma mudança cultural é necessária, que resgate a nossa sensibilidade e conhecimento, deixando para trás a superficialidade, o vazio e a monotonia das aparências.

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