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HELTON JOSUÉ alimento ruderal

O pesquisador Helton Josué Teodoro Muniz começou a colecionar frutas aos 15 anos, fazendo inúmeras expedições em busca de raridades como a Ubá-Peba, a Jabuticaba-Cipó, ou a Perinha do Campo. Hoje certamente tem reunida uma das maiores coleções de frutas do mundo, a maioria nativas. Também publicou um livro sobre o assunto e mantém o site www.colecionandofrutas.org onde compartilha seu conhecimento em fichas de descrição das plantas.

CI – Como começou o interesse pelas plantas, e especificamente pelas frutas nativas, indo muito além do que é apresentado nas feiras?

HJ - Meu interesse começou quando me mudei para a Fazenda de meus avós em Campina do Monte Alegre, interior de São Paulo com 15 anos de idade, em 1995. Foi por causa de um nome estranho para mim que se despertou a curiosidade para o infinito mundo das frutas nativas brasileiras. Era a saputá, fruta que pescadores usavam para se alimentar e para pescar pacu no rio Paranapanema. Contaram se tratar de um cipó que crescia na beira do rio, e produzia frutos amarelos e adocicados do tamanho de um limão galego. Para saciar minha curiosidade, consultei um dicionário e vi que o nome realmente existia. Comecei a folhear o dicionário e li um monte de nomes de frutas que eu nem conhecia e com isso em mente passei a me empenhar na busca delas. Hoje, após 18 anos, fico até mesmo encantado de ter alcançado o recorde de mais de 1300 espécies de frutas cultivadas em um só lugar. Atribuo a sabedoria que adquiri como sendo um “dom dado por Deus”.

CI – O senhor se denomina um frutólogo autodidata, e de fato tem um conhecimento vivido do assunto. Gostaria de saber em que medida é consultado pelos meios acadêmicos? Existe alguma pesquisa oficial que se aprofunde em frutas nativas?

HJ - O termo frutólogo não existe para a ciência botânica, e a profissão de fruticultor não se enquadra no trabalho que faço, que abrange outras áreas. Recebo visitas regulares de pesquisadores de universidades que estudam as propriedades das frutas brasileiras e também disponibilizo meu acervo em apoio ao trabalho do engenheiro agrônomo Harri Lorenzi, do Instituto Plantarum. Diversas instituições indicam o meu contato quando o assunto é identificar frutas encontradas e desconhecidas. Pelo que sei não há pesquisas de universidades ou instituições que ao menos descrevam uma lista da flora brasileira com potencial frutífero alimentar, existindo apenas extensas listas de regionais, sem destacar as frutas. Tenho conhecimento da existência de pelo menos 3000 espécies frutíferas comestíveis e nativas do Brasil, dessas já tenho em cultivo umas 1200 espécies.

CI – Ao longo dos anos, certamente alguns dos lugares onde foram descobertos exemplares raros, devem ter sofrido mudanças ou até mesmo desaparecido. Conte um pouco o ritmo dessa mudança na paisagem e a consequência na vegetação. É possível que algumas só existam hoje no Sítio Frutas Raras?

HJ - O ambiente mais destruído de nossa flora é o cerrado. Eu tenho aqui raríssimas frutas que resgatei de onde existia cerrado e hoje não existem mais. Algumas raras frutas que só tem no Sítio Frutas Raras são: a Perinha do campo (Eugenia arenosa) o Ubá-peva (Eugenia anomala), o Caritucuí ou Araticum vermelho (Annona cornifolia). Talvez existam em algum cerrado preservado, mas são dificílimas de serem encontradas hoje, e de tão raras, algumas delas não fazem parte da lista vermelha de plantas em extinção. Essa lista é incompleta e pecadora, pois é criada e baseada em coletas botânicas e levantamentos florísticos que deixam a desejar. Muitas áreas do Estado de São Paulo nunca foram inventariadas, e os que trabalham nesses inventários fazem sempre o trabalho mais fácil, de catalogar a flora comum, não tendo a visão que tenho de busca exaustiva por espécimes raros e difíceis de encontrar.

CI – São Paulo, tem orgulho de ser uma cidade cosmopolita, inclusive se colocando como a maior gastronomia do pais. Com tanta variedade de sabores locais, por que só consumimos as mesmas frutas em geral de origem estrangeira? Podemos pensar as frutas como um fator de preservação da identidade cultural? Afinal, tem alguma importância o paulistano encontrar Guabiroba para comprar na feira?

HJ - Com certeza São Paulo tem a maior fama na gastronomia, porém o problema com as frutas brasileiras é crônico e difícil de resolver, pois está na procura e na oferta. O consumidor só quer comprar frutas grandes e doces e os produtores, junto com o agronegócio, mexeram até no Brix (índice de açúcar nos alimentos) e acidez das frutas, tornando-as muito doces para agradar o consumidor. Com base nessa estratégia do agronegócio, se estragam três coisas. Primeiro, o paladar do consumidor, que come só coisas doces e fica com o paladar hipersensivel, não aceita outros sabores como a acidez. Segundo, a saúde do consumidor, pois frutas com alto Brix ou acidez muito baixa (ou seja de gosto muito doce) são alcalinas e após ingeridas se tornam ácidas no organismo, se tornando cancerígenas e iniciadoras de várias doenças. Por fim, as frutas nativas ácidas, que atuam no nosso corpo tornando-o alcalino, inibindo o câncer e outras doenças, são desprezadas pela indústria e o consumidor.

CI – Muitos paulistanos vivem em apartamentos apertados, condomínios fechados, e tem no shopping center um lugar seguro de convivência e lazer. A simbologia de colher uma fruta no pé, como antídoto a esse tipo de vida controlada, talvez seja o ponto de partida de um movimento crescente de pessoas interessadas em resgatar nascentes, construir lagos e hortas comunitárias.
Seria possível que pomares urbanos além de ajudar no convívio social, também servissem na conservação e divulgação dessas frutas desconhecidas?

HJ - Existe uma legislação que prevê e regulariza áreas verdes nessa questão. Um certo percentual de área urbana, ou condomínio, ou indústria, tem que ter um percentual mínimo de área verde. E por que um shopping center não deveria ter área verde? Poderiam incluir verdadeiros pomares de frutas silvestres. Porém, no paisagismo utilizam-se na maioria plantas exóticas, acrescentando outro problema, o desconhecimento das nossas cerca de 3000 espécies de frutas nativas. Por isso é importante o meu trabalho em apresentar esse conhecimento. Quando iniciei minha busca por frutas nativas, não havia informação. Hoje, ao se fazer busca sobre frutas nativas, o meu site é a principal referência, muito embora tenha outros sites que apresentam matérias semelhantes, que surgiram depois e até imitando meu trabalho. Acho isso muito bom, pois com mais pessoas divulgando e cultivando nossas frutas, pomares urbanos, públicos ou particulares devem surgir.

CI – Em um passado recente, a Pitanga era uma espécie pouco conhecida em São Paulo. Depois de uma maior divulgação como planta de paisagismo, o uso da fruta em sucos, e os passarinhos se encarregando de distribuir sementes, ela se tornou comum em jardins e espaços públicos. Já a Pitanga do Cerrado é uma raridade desconhecida. Espécies que são naturalmente escassas, poderiam se beneficiar dessa dinâmica entre o paisagismo e a avifauna e se tornarem comuns na cidade?

HJ - A maioria das frutas nativas já alimentava as inúmeras espécies de pássaros do passado. Ao se cultivar frutas raras, os pássaros vão disseminá-las, e espécies raras de pássaros virão e procriarão. Quando comecei a plantar, havia aqui 32 espécies de pássaros. Hoje, passados mais de 10 anos, há mais de 120 espécies, algumas bem raras como Gaturano marrom glassê, a Saira azul, o Azulão entre outras.

CI – Hoje ninguém imagina campos cerrados na cidade que já se chamou São Paulo dos Campos de Piratininga. A amnésia da paisagem nativa histórica e sua cultura, é vista como um processo inescapável. Como o senhor vê ao longo do tempo nas suas pesquisas a situação do Cerrado Paulista, ainda existem áreas que possam manter sua biodiversidade a longo prazo?

HJ - Lamentavelmente, o cerrado sempre foi considerado “mato seco para queimar”, e muito pouco se sabia dele. Porém, a maioria das pessoas com mais de 50 anos comeu ao menos uma pitanga, guabiroba, marmelinho ou cajuzinho do cerrado. Essas histórias deviam fazer parte do que se ensina nas escolas, para a nova geração conhecer o cerrado. Existem muitas áreas que poderiam ser regeneradas, e outras ainda preservadas,  deveriam receber um grande esforço para mantê-las intactas.

CI – Para finalizar, nos mutirões realizados pelo Cerrado Infinito, é perceptível o entusiasmo das pessoas em mexer na terra e ter esse contato com as plantas, algumas relatam mudanças no humor, e uma alegria incomum, desconhecida no cotidiano com o concreto agreste. Para o senhor o que significa conviver com plantas?

HJ - O trabalho com a terra e as plantas faz parte de nosso ser, pois Deus criou a terra e tudo o que nela existe para o homem, e o homem para a terra. Nos sentimos bem ao cuidar dela, e isso se torna espiritual quando conseguimos ver o capricho do Criador. Oposto a isso, a correria frenética da cidade influência as pessoas a focar no dinheiro, fazendo-as pensar que ele é tudo, o que consequentemente traz orgulho e arrogância. Porém, quando cuidamos das plantas, o dinheiro perde o valor, elas precisam de nossos cuidados e os cuidados de Deus. Tornamo-nos humildes, companheiros e dependentes uns dos outros e de Deus. Assim vemos que nenhuma fortuna pode sequer fazer germinar um só grão de feijão. Se conseguirmos desvestir das caracterÍstIcas ruins por trás do dinheiro, viveremos bem humorados e felizes conosco, com o próximo e com Deus.

entrevista de Helton para BBC Brasil

O MAIOR COLECIONADOR DE FRUTAS DO MUNDO