desenvolvido por: 

parceiros: 

DJALMA ROSA das ciências naturais

Djalma Rosa, vive no meio da reserva de cerrado em São Simão no interior de São Paulo, onde tem o Viveiro Carobinha. Ele reproduz até o momento 120 espécies do cerrado, boa parte dessas espécies, ele ainda é o único a conseguir produzir mudas. Autodidata, seu trabalho se desenvolve  acompanhando os estudos na área de restauração onde atua e observando diáriamente o meio natural.

ENTRE O RÚSTICO E O SENSÍVEL, ESTA UM CAMINHO MAIS AMPLO, ALÉM DA ERUDIÇÃO.

Daniel Caballero entrevista Djalma Rosa, primavera de 2017.

Procurava algum viveiro que desenvolvesse plantas já extintas no cerrado de São Paulo, para tentar reintroduzir no Cerrado Infinito, até que descobri o Viveiro Carobinha pelo Facebook.

O primeiro contato foi estranho do ponto de vista comercial, a pessoa do outro lado do e-mail, me indagava se eu sabia realmente o que queria comprar.

Perguntas e explicações sobre rizomas, desenvolvimentos das mudas, e até por que eu queria as plantas. Definitivamente não era um vendedor querendo liquidar um estoque de mercadorias.

Fui visitar o viveiro, no meio de uma reserva do raríssimo cerrado do Sudeste Meridional, o cerrado paulista no município de São Simão, e aparece um senhor falante, que antes de mais nada desanda a me explicar como se faz uma restauração de cerrado, e me leva a andar por toda a reserva, mostrando uma lista grande de graves equívocos. Restaurações erradas com plantas que não são do cerrado, uso de veneno e correções do solo, entre outras barbaridades. Talvez eu não teria muita opção se quisesse, mas a palestra era boa e fiz muitas perguntas dando corda à conversa.

Depois de uns 40 minutos perguntando coisas, por que eu também sou falador, ele me olha e fala: - Ok, você entende de cerrado! Pronto! 

Em seguida me leva para fazermos um outro tipo de tour, me apresentando paisagens e plantas maravilhosas.

Pude ver o cerrado paulista em um fragmento ainda integro e com muita biodiversidade, bem diferente do fantasma dessa paisagem que perambula por São Paulo, e que tento reter no projeto do Cerrado Infinito.

Fiquei espantado, o que sobrou dele não faz feio em relação a outras áreas mais bem preservadas no Centro Oeste do pais, e ainda assimilando a paisagem, pergunto se tive a sorte de ter ido numa época do ano favorável.

No cerrado todas as épocas são favoráveis! - ele responde rápido.

Como poderia discordar? Por fim, depois de quase duas horas, finalmente compro algumas mudas.

Esse é o Djalma.

DC - Djalma, conte um pouco tua história, de onde vem essa tua relação com o cerrado e como foi tua formação? Como começou o Viveiro Carobinha?

 

D - Nasci e cresci nos cerrados, num tempo em que a comida era pouca, e as frutas dos cerrados complementavam e enriqueciam a alimentação. Quando precisei voltar, uma volta para as origens, os cerrados eram o lugar natural; no entanto vi que sua destruição era muita sem as pessoas perceberem o bioma; mesmo as pessoas que por dever de ofício precisariam trabalhar para preservá-lo não o fazem. Diziam que era impossível.

Mas numa olhada rápida, vemos que a vida nos Cerrados é muito forte , ela se renova e desenvolve nas piores condições. Como poderia ser difícil de recuperar ?

Sempre trabalhei com telecomunicações, fiz engenharia civil até o terceiro ano, não fiz a parte técnica mas  as físicas e as matemáticas fiz todas, isso me dá poder de análise...

Tentei fazer mudas, achei que era simples que nem plantar café,  mas logo descobri que o buraco era mais embaixo, a raiz é mais embaixo, é outro paradigma. Você tem plantas de alguns centímetros com raízes profundas que logo rompem o saco plástico de mudas. E ninguém quer mudas de poucos centímetros. Por outro lado não tenho concorrência pois nenhum viveiro se preocupa em fazer isso direito.

 

 

DC - Você vive dentro do cerrado, sua casa está na reserva de São Simão, qual o reflexo na forma como você estuda as plantas e desenvolve a produção de mudas? Por que ainda é tão difícil reproduzir espécies do cerrado?

 

D - Vi que pela dinâmica do trabalho era necessário estar dentro da reserva, pois a maior dificuldade era achar as matrizes, fazer a identificação, acompanhar os ciclos e esperar a época dos frutos. Se estivesse na cidade a dificuldade seria imensa, por isso outros viveiros não fazem as mudas, que depois de prontas tanto faz estarem aqui ou na cidade, elas já tem seu valor agregado e o transporte tem pouca influência.

 

 

 

DC - Como é feita hoje a restauração do cerrado, o que ela pode fazer de fato pela sua biodiversidade?  

 

D - Estive a algumas semanas no “ Simpósio de Restauração Ecológica ” ; veja que nome pomposo. Apesar do nome, em apenas uma palestra não se falou em algo que não fosse plantio de árvores. Esse povo é capaz de plantar árvores até para recuperar os pampas! Ora! Restauração significa: árvores, arbustos, sub-arbustos, cipós, ervas, epífitas e importantíssimo: macro biota (minhocas, lacraias, besouros , etc) e micro biota (fungos e bactérias) que são o alicerce do bioma, onde acontece a reciclagem da matéria orgânica; além da fauna que também tem seu papel.

Biomas são sistemas complexos, composto de elementos interagindo numa dinâmica que garante a continuidade da  vida.

Em todos os projetos de “ recuperação ”, a primeira coisa que fazem é lavar a terra de veneno, dizimando todo o alicerce biológico que ainda existia, além das espécies do sub-bosque e plântulas.  Como não se faz mudas grandes dos cerrados, devido a planta crescer primeiro pela raiz, plantam apenas mudas de cinco ou seis espécies de variedades arbóreas da mata atlântica; e para coroar, como essas plantas não são adaptadas aos ciclos do cerrado, são atacadas por formigas, e então colocam ainda mais veneno. É inacreditável a quantidade de veneno espalhado por esses locais!  

 

 

 

DC- Como deveria ser feita então? O que falta para os meios acadêmicos, políticos e ambientais colocarem em prática?​

 

D - Recuperar biomas não é plantação de monocultura , faz-se necessário estudar a área para identificar a dinâmica do local; a partir desse diagnóstico fazer as intervenções dirigindo o trabalho para o resultado que queremos, utilizando todas as espécies presentes no local, que devem ser manejadas para contribuir com o resultado, até mesmo a própria braquiária africana que queremos eliminar. E ainda assim, nos cerrados é ainda mais específica , pois trata-se de várias fitofisionomias. 

 

 

 

DC - Como esse processo poderia então ser colocado em larga escala, sendo viável comercialmente? A primeira coisa que imaginamos ao comprar mudas é que elas estão prontas , já com um tamanho considerável, e ai você diz para esperarmos alguns anos. Como acelerar esse processo? Precisa recuperar?

 

D - A questão  é : Precisa recuperar ? Recuperar porque não temos água?

Por que a perda da biodiversidade terá consequências  desastrosas no futuro?

Observe, os motivos são todos egoístas, e nos dizem respeito. O que é preferível beber? Um copo de água ou um copo de ouro em pó ?

Isso esclarecido, nós é que temos que nos recuperar, dar um direcionamento diferente aos nossos atos .

Como fazer? O raciocínio de fazer nada tem a ver com lavoura, o tempo é outro e a finalidade é outra, não vamos plantar algo para colher daqui alguns meses e vender. Vamos cuidar de uma área para preservar para sempre, caso contrário seus filhos e netos terão mais dificuldades do que estamos tendo.

É disso que se trata . 

 

 

 

DC - Sua metodologia, certamente respeita o bioma e suas características peculiares, que são muito distantes do que seria a cultura mais elementar de jardinagem ou reflorestamento. Você vê algum paralelo entre o modelo que você propõe e conceitos mais em voga, como a Agricultura Sintrópica? Seria um tipo de restauração sintrópica? 

D - A agricultura  sintrópica  estuda os processos do bioma e tenta fazer uma produção, maximizando os resultados com um mínimo de distorção nos processos naturais. Acumulando energia e redistribuindo para outras espécies que é a  base da vida .

Uma restauração como o próprio nome define, é a recomposição desse processo, em área agredida, para fazer qualquer restauração é imprescindível conhecer a mecânica do bioma. 

 

 

DC - O que você acha de permacultura, agrofloresta...esses conceitos são aplicáveis ao cerrado?

 

D – Permacultura e agrofloresta são conceitos onde introduzimos espécies exóticas de interesse para conviver com a flora nativa. Algumas espécies poderão não tolerar, outras sim. A ideia é boa, já de  inicio porque pressupões estudo e observação e um trabalho a longo prazo.

Uma ideia ótima seria criar uma zona de amortecimento de agrofloresta com espécies exóticas e nativas  entre as áreas de monocultura e as matas ciliares, isso aumentaria a proteção, daria lucro e empregaria mão de obra, distribuindo renda, ao contrário da monocultura que é concentradora de renda.

Os cerrados ainda são vistos como área plana para usar máquinas, onde o solo é regado com agroquímicos. Isso não tem dado muito certo.          

 

 

 

DC - Como você avalia a iniciativa do Cerrado Infinito? O método de transplante de mudas partiu de um contexto urbano, como um conceito artístico de colagem. A ideia era coletar grupos de plantas de diferentes lugares, que em si já são fragmentos do que foi o cerrado paulistano, e plantar agrupadas formando uma nova paisagem. No fim essa se mostrou a única possibilidade viável, e também numa escala artesanal, feita a partir de circunstâncias de vulnerabilidade de certos grupos vegetais. Essa ideia do transplante, foi recentemente testada no interior de São Paulo e começa a circular academicamente. Mas por que a demora em chegar nessa solução? Não é óbvio usar os fragmentos que sobraram como produtores de mudas para criação de áreas de expansão da flora?

 

D - O Cerrado Infinito tem a característica própria dos artistas de antecipar fatos que serão solidificados daqui algum tempo, alertando para eventos  imprevisíveis como foi o caso da crise hídrica e também concentrando esse fascínio difuso que os cerrados exercem sobre as pessoas, com seus campos abertos,  a vegetação rala mas fascinante  dando sensação de liberdade.

Sem os ranços da academia, sem o ranço da monocultura, conseguiu mostrar um caminho viável, da recuperação desse bioma, mesmo vindo tardiamente.  A cidade de São Paulo destruiu seu cerrado, logo, ajuda a percebermos sua importância para nossa própria sobrevivência.

 

 

 

DC - O que você acha das pesquisas que têm sido feitas nessa área? Parece que existe uma certa indefinição nesse processo, as estratégias ainda não são consensuais. Restaurar o cerrado seria uma atividade recente,  com linhas de pesquisa ainda se definindo?  Olhando aqui de fora, a sensação é que começamos  a pensar tarde em conservar e restaurar cerrado. Faz sentido essas indagações?​

 

D - Eu não me conformei com a posição de muitos da academia que os cerrados não podem ser recuperados. Ainda hoje percebo que essa posição deve-se ao fato do desinteresse em fazê-lo, ocasionado pelo desprezo e uma formação onde falta uma visão holística. Uma antecipação do Cerrado Infinito foi o método de plantar gramíneas, espécies arbustivas e sub arbustivas transplantando as plantas com torrões, isso além de levar a espécie, leva também grande quantidade de micro-organismos que fazem parte da vida daquele indivíduo,  e essa simbiose é a que garante sua sobrevivência.

Intuitivamente você fez algo que a academia só começa a aplicar hoje e que em qualquer análise é um fato claro.

 

    

DC - Vimos recentemente a queima de mais de 70 mil hectares do Parque da Chapada dos Veadeiros, mais do que o tamanho do Parque antes da ampliação, a que se deve esse incêndio e de que forma ele impacta a reserva? O que deve ser feito agora para evitar que isso ocorra novamente?

 

D - Vimos nesse dias um grande incêndio na Chapada dos Veadeiros, uma grande reserva de Cerrados. Temos uma questão de lógica, as espécies dos cerrados tem estruturas para resistir ao fogo?

Sim, porque estão ai até hoje, pois ao longo de milhões de anos elas desenvolveram estruturas para sobreviver ao fogo. As espécies que não se adaptaram foram extintas, o que  nos leva a conclusão que o fogo faz parte de sua dinâmica.

Sem o fogo elas perderão funções e sofrerão alterações, não serão preservadas .

Porém há fogo e fogo, o espontâneo que sempre teve, tem algumas características, muito calor por vários dias e ar muito seco, fazendo que o fogo na serapilheira, seja rápido e superficial, as espécies sabem conviver com esse evento, e inclusive algumas sementes terão sua dormência quebrada, também alguns compostos químicos serão decompostos e absorvidos.

Porém no fogo criminoso, que é o caso, essas condições não serão observadas, o fogo será fora da época e terá uma frequência muito maior.  Quadro piorado pela invasão do capim braquiária, que aumenta a massa seca e faz com que o fogo tenha mais intensidade, causando danos mortais a muitas espécies.

Como evitar queimadas criminosas? Vigilância e punição. Respeito a lei e cadeia.

  

 

DC - O que você pensa sobre o futuro? Já foi destruído segundo os cálculos  divulgados, em torno de 50% da sua área, isso confere?

A questão é que esse processo começou a poucas décadas e cada vez acelera mais. Outro consenso diz que o fim do cerrado pode ocorrer dentro de pouco mais de uma década. Nesse caso, e levando em conta que o cerrado é um dos biomas mais antigos do planeta, talvez ele seja um dos mais rapidamente extintos da história do planeta. Qual o critério para chegar nesses números? São confiáveis?​

 

D - Temos hoje grandes áreas destruídas pela monocultura, que usa os pivôs centrais retirando muita água do subsolo, aplica quantidade fantástica de veneno que contamina os rios e o lençol freático, aspersão de veneno por aviões que dizimam muitas espécies e etc.

Mas temos pessoas capacitadas, técnicos competentes e que podem montar procedimentos que minimizem esse danos e contando com a grande resiliência dos cerrados ele sobreviverá, como tem sobrevivido há milhões de anos.

Infelizmente essa mentalidade é adotada apenas quando o problema se torna premente, eles não antecipam fatos como os artistas, mas basta olhar no mapa. Todos os rios que alimentam o Pantanal saem dos cerrados, quando lá chegar o assoreamento, os venenos e faltar as águas que dão aquela explosão de vida, teremos outra gritaria, o fim do Pantanal. Porque tem que ser assim?

Somos loucos por nos preocupar com pessoas que nem nasceram ainda?

Esses critérios não são verdadeiros, ande no Mato Grosso, o nome já indica uma referência ao cerrado, hoje são dias e dias andando por extensas lavouras, sem se ver áreas naturais.

O que sobrou é muito fragmentado, dependendo do tamanho do fragmento ele não se sustenta e afeta muito a fauna, tem espécies que precisam de áreas grandes, como o lobo guará, a onça ou a anta.

Embora alguns animais sejam adaptáveis, no contato humano o bicho sempre sai perdendo. Ninguém quer um bicho comendo sua galinha, nem mesmo o bicho, que prefere seu cardápio de tatus, pacas e outros animais da selva.

Mas sem opção, ele ataca e leva chumbo!

 

 

DC - Qual a consequência disso? Como será a vida sem o cerrado? O que as pessoas em geral, ou melhor dizendo o eleitor, o empreendendor e o consumidor podem fazer?

 

D - A  professora Vanderlan Bolzani fala de motivos egoístas. Se hoje temos um auê a respeito dos cerrados, não é por motivos altruístas, mas porque a água está diminuindo e terá muito menos em curtíssimo tempo.

A peculiaridade marcante desse bioma é a interação entre as espécies, garantindo muita vida. Poderá garantir a nossa? Pelo que estamos vendo sem ele será difícil.

O quintal do Djalma

O quintal do Djalma, dá uma boa idéia de como era o cerrado de São Paulo. Era? Mas não estamos vendo ele? De fato Djalma mora em um fragmento muito interessante, mas pequeno como outros que sobraram no interior do estado de São Paulo. O cerrado paulista, que ocupava uma área em torno de 14% do estado foi quase todo destruído nos anos 70, de lá pra cá sua destruição não para, hoje sobraram menos que 1% da área óriginal. Mesmo assim esses fragmentos conservam uma rica biodiversidade que justifica a tentativa de preservá-los. Será que é possível restaurar uma parte desse bioma á partir desses minúsculos fragmentos, ou eles estão condenados? Djalma acredita que sim.

1/13