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BIANCA BRASIL das ciências naturais

Bióloga com mestrado em Botânica pela Universidade de São Paulo e técnica em Paisagismo pelo SENAC-SP. Após diversos cursos de formação na área de botânica, ecologia e desenho, vem trabalhando com paisagismo há pelo menos 6 anos, além de ter tido a oportunidade de lecionar no convênio USP-REDEFOR, USP-UNIVESP e na pós-graduação em Arquitetura da Paisagem do SENAC, onde desmistifica o mundo da botânica aos aspirantes a paisagistas.

Atualmente trabalha na EKOA Paisagismo, é voluntária em inciativas verdes/plantios pela cidade e pesquisa as plantas nativas com potencial ornamental.

O silêncio é a verdadeira sinfônia da destruição

Peguei o título de um dos capítulos do livro do Daniel Caballero para chamar de meu, porque ele é meu, ele é de todos os que entendem – ainda que de uma perspectiva puramente afetiva – a causa do Cerrado, o bioma silenciado.

No tal capítulo, o Daniel fala da destruição da savana brasileira (sim!, o Cerrado é uma savana, imensa e biodiversa), causada sobretudo pelo agronegócio e pela introdução de capins africanos para a pecuária. Essas práticas arrancam a vegetação nativa e, com elas, todos os animais que dela dependem para viver. E, ainda, ou modificam quimicamente o solo e desperdiçam água (no caso do agricultura industrial), ou introduzem capins exóticos que enxotam as plantas nativas para todo o sempre (no caso da pecuária). O resultado é uma paisagem silenciosa, sem os sons próprios da vida que, por milhões de anos, vicejou ali. Para corações mais sensíveis à causa da savana brasileira, no entanto, essas paisagens não estão silenciosas, mas emitindo gritos de horror.

Há outro silêncio em jogo, no entanto, e ele tão perigoso quanto (ou ainda mais que) aquele das paisagens físicas – é um silêncio que não pode ser medido em decibéis. É o silêncio da baixa representatividade do Cerrado na cultura brasileira, em geral. Quem, ao pensar em paisagens brasileiras, irá evocar a imagem de uma savana, e não de uma floresta ou de uma praia? Quem irá pensar em campos dourados, com árvores e arbustos retorcidos e espalhados?

O livro e a obra de Daniel Caballero fazem uma importante crítica a uma espécie de “arboricentrismo” do qual parecemos padecer, os brasileiros. Porque diante do fascínio que nos exercem as maravilhosas árvores das nossas paisagens, esquecemo-nos de olhar nossos capins, nossas singelas florezinhas que caracterizam, não apenas um, mas dois dos seis biomas brasileiros: o Cerrado e os Pampas.

Temos identidades savânicas e campestres por desvelar, por construir. Enxergar essas belas e numerosas plantas significaria curar-se de uma espécie de miopia:

“Conforme aprendo a conhecer cada tipo de planta, minha vista se abre para esse tipo de vegetação e me distancio da paisagem cotidiana. O que antes era uma massa verde e uniforme ganha inúmeras texturas e volumes, como se me curasse de um tipo de miopia.”

Precisamos, então, não apenas de ouvidos que ouçam a silenciosa sinfonia da destruição do Cerrado, mas de olhos, se não curados, ao menos acrescidos de lentes que lhes permitam ver esse bioma. E a obra do Daniel parece-me ser uma das mais potentes lentes de que dispomos, neste momento, para colocar em foco, trazer à tona, essas numerosas plantinhas que, não apenas estão sumindo de nossas paisagens, mas dos nossos corações, cabeças, histórias, lembranças, possibilidades. O Cerrado está desaparecendo dos mapas geográficos antes que possa figurar dignamente em nossos mapas mentais e culturais.

Em uma era em que a ação humana revela-se tão determinante na configuração das paisagens globais (cientistas discutem sobre se estamos ou não estamos no Antropoceno, uma nova era geológica), parece haver pouca esperança de salvação fora do próprio homem. Munidos de mais poder do que de maturidade, vamos ceifando ecossistemas, encontrando mais resistência contra a destruição de uns do que de outros – e a savana brasileira raramente é alvo de campanhas de preservação. Sem conhecer e amar, definitivamente não iremos cuidar. E se o acesso à informação é essencial, ele, por si só, não é suficiente para inspirar-nos o desejo de conservação.

É nesse sentido que a obra de Caballero parece-me tão relevante. Ela manifesta a potência da arte ao revelar, para nosso estarrecimento, que sim, havia campos cerrados onde hoje se contorce, como “um terremoto às avessas”, a cidade de São Paulo. Daniel retrata, como um antigo viajante, a singularidade e a nobreza – caipira, por vezes – dessas plantas que foram arrancadas das nossas paisagens físicas e afetivas sem que sequer nos déssemos conta.

Hoje, é um baita de um desafio encontrar uma simples touceira de capim nativo na cidade que nasceu como Vila de São Paulo dos Campos de Piratininga – campos, esses, de capins nativos. Esse é um apavorante indício do que pode acontecer em todo o território do Brasil Central, dada a letalidade da agricultura industrial e a ferocidade dos capins exóticos, que avançam, ambos, sobre o Cerrado como se ele fosse terra de ninguém.

Mas não há de ser assim. Temos um bocado de trabalho pela frente, e não iremos a lugar algum sem a arte. Só o afeto poderá nos salvar, aliado à ciência e a políticas concretas de conservação e restauração. E nada é mais afetuoso que o nome do projeto do Daniel, Cerrado Infinito.

Infinito seja o nosso Cerrado.

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