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ALESSANDRA FIDELIS das ciências naturais

Mariana Siqueira é arquiteta, paisagista e idealizadora do projeto Jardins do Cerrado que visa criar uma expressão paisagística da savana brasileira através da introdução de sua flora rasteira, composta por capins, arbustos e florzinhas singelas, em jardins urbanos. O projeto é uma parceria entre o escritório Mariana Siqueira Arquitetura da Paisagem, o ICMBIO ( Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade ), a UNB ( Universidade de Brasília ), a EMBRAPA Recursos Genéticos e Biotecnologia e EMBRAPA Cerrados, além do Jardim Botânico de Brasília.

FOGO E CERRADO, VAMOS FALAR DESSE ASSUNTO TÃO POLÊMICO.

Outubro foi um mês difícil para quem é brigadista: incêndios por todas as partes, passando rapidamente por tudo e todos, com poucas chances de serem controlados até que a chuva chegou e acalmou tudo.
Foram milhares de hectares queimados, que na visão de muitos, transformou o Cerrado em carvão, em um vazio.
Acho que todos viram vários posts nas redes sociais, sobre os grandes incêndios que ocorreram na Chapada dos Veadeiros, toda a mobilização, milhares de hectares queimados, incêndios criminosos.

Mas e agora, choveu, passou um tempo e como está o Cerrado? Destruído? Carvão? Morto?

Aí que está - NÃO! Passando pela Chapada dos Veadeiros, e indo em direção da Serra do Tombador (que também sofreu muito com os incêndios, onde temos experimentos, o que vi foi o Cerrado renascendo, rebrotando, germinando, florescendo, frutificando, dispersando sementes, trazendo vida!

O fogo faz parte do Cerrado e ponto. Quando entendermos isso, falar sobre o fogo será mais fácil. O lindo trabalho do Marcelo Simon (Simon et al., 2009. PNAS) já mostrou que o fogo está presente no Cerrado há pelo menos 4 milhões de anos. E as plantas evoluíram, diversificaram-se na presença dele. A vegetação é tão resiliente, que responde rapidamente ao fogo, como a gente pode ver agora, um mês pós-fogo, tudo verdinho e vivo novamente.

Os grandes incêndios foram sim provocados e criminosos. Mas a política de exclusão de fogo também ajudou a intensificar mais ainda os incêndios ocorridos agora em outubro em várias regiões do Brasil com vegetação de Cerrado. Na minha opinião, excluir o fogo do Cerrado só não é pior do que plantar braquiária e árvores em áreas campestres e de savanas abertas. O lindo trabalho de Abreu et al., 2017, Science Advances já mostrou: 30 anos de exclusão de fogo levou à perda de mais de 70% de espécies de plantas e formigas do Cerrado.

Felizmente a política sobre o fogo e seu uso como ferramenta de manejo está mudando. Desde 2014 algumas unidades de conservação no Brasil começaram a fazer manejo de fogo. Mas no meu ponto de vista, o mais importante é que gestores e tomadores de decisão estão percebendo que o fogo faz parte do sistema e excluí-lo por muito tempo é transformar sua Unidade de Conservação numa bomba relógio, porque uma hora, o Cerrado vai pegar fogo.

Mas e os bichinhos?? 
Eles são mais espertos do que a gente pensa! Se escondem, fogem, se protegem. Eu caminhei um monte por várias áreas de cerrado agora e não encontrei uma carcaça sequer de bicho. Sim, alguns morreram, mas muitos sobreviveram e estão aproveitando as áreas recém-queimadas para se alimentarem, reproduzirem e caçarem!

Se você pensou em cancelar sua viagem para a Chapada por causa do fogo, repense, ela nunca esteve tão linda como agora e nos próximos meses, após o fogo!

Fotos de Alessandra Fidelis